Arquivo de Ensaios - Celeste Dummer https://celestedummer.com.br/category/ensaios/ Professora e Escritora - Professora de Língua Portuguesa e Literatura da rede pública estadual gaúcha, Especialista em Literaturas – publicou livros de pesquisa histórica e peças de teatro para alunos Tue, 27 May 2014 02:20:56 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://celestedummer.com.br/wp-content/uploads/2024/04/fav-icone.png Arquivo de Ensaios - Celeste Dummer https://celestedummer.com.br/category/ensaios/ 32 32 QUINTANA, A VIDA E O SONHO https://celestedummer.com.br/quintana-a-vida-e-o-sonho/ Tue, 27 May 2014 02:20:56 +0000 http://celestedummer.com.br/web/?p=528 QUINTANA,  A VIDA E O SONHO (>>PDF<<) Octavio Paz, em  O arco e a lira, diz que ‘‘poesia é conhecimento, salvação, poder; operação capaz de...

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QUINTANA,  A VIDA E O SONHO (>>PDF<<)

Esanios - A Vida e o Sonho - Mário Quintana
Ensaios – A Vida e o Sonho – Mário Quintana

Octavio Paz, em  O arco e a lira, diz que ‘‘poesia é conhecimento, salvação, poder; operação capaz de revelar e transformar o mundo, criar outro’’. Reflete e recria os sentimentos, a emoção, a vida. Dá asas à imaginação e aos sonhos. ‘‘É obediência às regras; criação de outras. É a voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário’’ concretizada através de palavras, rimas, ritmo, métrica.

Sob este prisma far-se-á a análise de alguns poemas da obra de Mario Quintana, poeta gaúcho, que usa todas as formas e distribui as palavras no espaço do poema. A disposição gráfica alia-se à melodia. Em atmosferas várias deixa à vista os seus temas preferenciais.

Mario Quintana  ao declarar em obra sua – Lili inventa o mundo – que ‘‘a vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada,’’ não faz referência a uma faixa etária; traz esta possibilidade para todos: crianças, jovens, adultos, idosos.

Segundo Tânia Carvalhal, esta afirmação parece resumir a sua obra: constante mudança da experiência vivida para o domínio do sonho. A poesia de Quintana é lirismo que anda no ar, o poético está disperso no mais prosaico e no mais onírico. Na rotina e no sonho, no riso  e na lágrima, seus ‘‘ quintanares’’  nos vão dizendo sobre tudo aquilo que paira na superfície.

A poesia de Quintana reconstrói no poema a dualidade de uma experiência simples para disfarçar sua real complexidade. Um exemplo é a frase: ‘‘Amar é mudar a alma de casa.’’ …

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O Quarto Fechado de Lia Luft https://celestedummer.com.br/o-quarto-fechado-de-lia-luft/ Tue, 27 May 2014 02:02:52 +0000 http://celestedummer.com.br/web/?p=522 A POLIFONIA NO ROMANCE O QUARTO FECHADO DE LIA LUFT (>>PDF<<)   Visualizar em PDF          O presente trabalho pretende fazer uma análise...

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A POLIFONIA NO ROMANCE O QUARTO FECHADO DE LIA LUFT (>>PDF<<)

 

Quarto Fechado de Lia Luft
Quarto Fechado de Lia Luft

Visualizar em PDF          O presente trabalho pretende fazer uma análise do romance O Quarto Fechado da escritora gaúcha Lia Luft, enfocando a influência da   polifonia no desnudamento das personagens (pessoas que vivem dramas e situações dentro da narrativa, à imagem e semelhança do ser humano) na construção do romance psicológico.

Segundo definição de teóricos, entre eles Bakhtin, polifonia é a simultaneidade de várias vozes que se desenvolvem independentemente dentro da obra sem interferir na unidade da história.

Uma obra é polifônica quando as personagens têm voz própria, têm uma ideologia própria, manifestam sua autoconsciência, traçam seu destino, vivem sempre no limite para chegar ao autoconhecimento. Tentam entender e explicar o mundo.  …. …

 

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AGOSTO https://celestedummer.com.br/480-2/ Thu, 08 May 2014 03:06:11 +0000 http://celestedummer.com.br/web/?p=480 A HISTÓRIA Agosto é um romance em que Rubem Fonseca brilhantemente faz a fusão entre ficção e história real de um período conturbado e tumultuado...

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Outono
Agosto
  1. A HISTÓRIA

Agosto é um romance em que Rubem Fonseca brilhantemente faz a fusão entre ficção e história real de um período conturbado e tumultuado da História do Brasil.

A narrativa da obra inicia na madrugada do dia 1o  de agosto de 1954, com o assassinato do empresário Paulo Gomes Aguiar, atinge o clímax no dia 24 do mesmo mês, quando o Presidente Getúlio Vargas comete suicídio e termina no dia 26 com a cidade e o país voltando à normalidade.

O autor faz uma minuciosa pesquisa histórica e produz um livro eletrizante onde se pode ver a vida, as dificuldades, as intrigas políticas, os interesses econômicos, políticos e pessoais que unem bicheiros, brigadeiros, prostitutas, policiais, golpistas, pistoleiros de aluguel, autoridades e políticos corrompidos.

Tudo se complica quando, no dia 1o de agosto, é assassinado o industrial Paulo Gomes Aguiar e o Presidente Getúlio Vargas é acusado de ser conivente com  assassinatos e tolerar a impunidade.

O jornalista Carlos Lacerda, Diretor da Tribuna da Imprensa, sofre um atentado, acusa o Presidente Getúlio Vargas de ser o mandante do crime. Denuncia a impunidade reinante em seu governo, lança uma campanha pedindo a renúncia ou destituição do presidente. É integrante da UDN, partido de oposição e candidato a deputado nas próximas eleições.

A partir deste ponto, o comissário de polícia Alberto Mattos, o único policial que não recebia propina dos bicheiros, faz uma investigação detalhada, persegue suspeitas, esgota todas as possibilidades, segue as pistas obsessivamente.

Surge, então, o mundo do jogo do  bicho onde os bicheiros estabelecem seus domínios, lutam pela divisão do território, o controle dos pontos de venda geram conflitos. A propina paga a políticos e policiais para não aplicarem a lei é uma realidade.

Mostra, o autor, a situação dos policiais que não possuem isenção e liberdade para desempenharem suas funções, aplicar a lei, prender e punir criminosos ou transgressores da lei, porque estão comprometidos e acuados.

Dá uma visão da realidade política da época, onde os partidos políticos (UDN, PTB e PSD) da oposição e situação estão em confronto. A UDN ( partido de Carlos Lacerda), partido da oposição, lança uma campanha aberta, defendendo a deposição ou renúncia de Getúlio Vargas por estar acobertando e tolerando a impunidade.

Já o PTB, partido que apoiava o Presidente, mesmo vendo que a situação está difícil, que o povo está insatisfeito, que a popularidade caiu muito, procura uma saída honrosa para Getúlio, propondo um licenciamento.

As forças armadas ( exército, marinha e aeronáutica) defendem abertamente o afastamento do Presidente.

Após muitas reuniões com militares, ministros e familiares decidem pelo afastamento de Getúlio. O inesperado, porém, surpreende a todos: o Presidente suicida-se em seu quarto no dia 24 de agosto de l954 com um tiro no peito.

  1. A NARRATIVA

O autor, narrador heterodiegético, onisciente, narra na 3a pessoa a história-ficção, ou seja, um fato histórico da História do Brasil. Articula uma experiência linear do tempo. Através de um enredo marca as ações, os fatos que desencadeiam acontecimentos históricos brasileiros e o suicídio (talvez assassinato) de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto de l954.

O narrador descreve, faz um retrato do Brasil de agosto de l954 em que aparecem o jogo, os interesses políticos e econômicos que determinam rumos e ações. As relações nada amistosas entre os diversos partidos políticos preocupam civis e militares. As atitudes tomadas pelas pessoas, autoridades, que se viam na eminência de ganhar ou perder o poder, são reveladoras.

O autor conta a história de um ponto de vista diferente, apresenta uma versão diversa daquela veiculada oficialmente através de livros de história e/ou didáticos.

Getúlio é apresentado como um velho desencantado, um homem sem esperanças, sem desejo, sem vontade de lutar; um homem pequeno, frágil, vítima de aleivosias dos inimigos, dos julgamentos ambíguos dos amigos, um fantasma para os filhos; um indivíduo triste, reservado, traído, desgostoso com a covardia dos aliados hipócritas. Um presidente envolvido em corrupção, em dificuldades políticas, interesses econômicos nacionais e internacionais. É apontado como mandante de assassinatos, atentados e tentativa de assassinato de opositores. É apresentado como uma autoridade que tolera a impunidade reinante.

A história oficial apresenta-o como um grande chefe-de-estado, um benfeitor dos menos favorecidos. Aquele que possibilitou e assegurou garantias e avanços sociais ao povo; ao país assegurou um avanço significativo no comércio, indústria e agricultura.

Rubem Fonseca vale-se de fatos históricos do passado da história do país e, através de ‘‘flashback’’, das lembranças de personagens, faz referências importantes e possibilita um entendimento da história atual (agosto de 1954).

A Ação Integralista de 1938, segundo o doutor Ramos:

‘‘O pai de Lomagno era um integralista conhecido que financiou a Ação Integralista Brasileira até  1938, quando os galinhas verdes armaram aquele putsch que fracassou. Então o Lomagno velho pulou fora aderindo ao Getúlio, o carrasco do seu partido. O filho nunca quis saber dos anauês dos verdes, mas também é verdade que ele era muito criança quando o Plinio Salgado dava as cartas’’. (Agosto, p. 79 )

O senador Vitor Freitas, referindo-se ao brigadeiro Eduardo Gomes:

‘‘O brigadeiro fora candidato à presidência da República, pela UDN, em 1946 e em 1950. Na primeira eleição, perdera para o general Gaspar Dutra, que fora ministro da Guerra durante a ditadura. Na Segunda, para o próprio Vargas, uma vitória inesperada do ex-ditador, que se vingava assim de um dos militares que haviam liderado o movimento que o depusera em 1945.’’ ( Agosto, p. 85 )

O coronel José Vaz da Silva quando pediu a união das Forças Armadas:

‘‘O dia 29 de outubro marcava a data em que Vargas fora obrigado a renunciar, em 1945, num golpe militar comandado pelo então ministro da Guerra, general Góes Monteiro’’.  (  Agosto, p. 160 )

O comissário de polícia Alberto Mattos, recordando sua participação do ‘‘Queremismo’’:

‘‘Pressionado pelos militares, em 45, o Getúlio que teve que marcar eleições para a Presidência da República e lançou a candidatura do seu ministro da Guerra, o Gaspar  Dutra. Mas ao mesmo tempo organizou um movimento para manter-se no poder, cuja palavra de ord4em era ‘‘Queremos Getúlio’’, que defendia a reunião de uma Assembléia Constituinte com Getúlio no poder.’’  (Agosto, p. 312- 313 )

O senador Freitas analisando a campanha de desmoralização de Vargas organizada pela Igreja e setores das Forças Armadas.

‘‘ Em janeiro de l920, segundo os jornais, Getúlio Vargas, com seu cúmplice Soriano Serra, teria assassinado o cacique Tibúrcio Fongue, da tribo dos inhacorá.  Em 1923, Vargas, ainda com a cumplicidade de Soriano Serra, teria assassinado o engenheiro Ildefonso Soares pinto, secretário de   Obras Públicas do então governador Borges de Medeiros.’’  (Agosto, p. 153 )

O autor transforma-se em narrador extradiegético quando algumas personagens expressam seus sentimentos e pensamentos através de monólogo interior.

O monólogo interior é narrado na 3a pessoa.

‘‘ O que estava acontecendo não lhe interessava nem o comovia. Todos os políticos eram corruptos e aqueles que não eram não eram ladrões, se é que existiam, eram mentirosos. E os imbecis que saíam às ruas para dar vivas aos políticos mereciam aquilo mesmo, porrada nos cornos.’’  (  Agosto, p. l82 )

‘‘Ele já se arrependera por ter deixado de matar alguém. Por ter matado, aquela era a primeira vez. Fora um erro liquidar o Turco velho. Turco Velho era um pistoleiro carro, que costumava servir políticos, fazendeiros e outras pessoas de recursos financeiros. Agora era impossível saber que o havia empreitado para assassinar Mattos. ’’ ( Agosto, p. 197 )

Faz uma reconstrução ficcional do passado porque a realidade original não existe. Na refiguração do tempo a narrativa histórica e a narrativa ficcional se interpenetram, no entanto, não se confundem.

  1. A META-HISTÓRIA

O autor leva o leitor a fazer uma reflexão sobre a História do Brasil. Orienta para uma releitura, para uma nova direção e nova versão para que pense de forma diferente, uma vez que a história oficial não fornece, não conta os bastidores das decisões políticas.

 

Usa a meta-história. Concebe a história como discurso, elabora um conceito de História através da personagem Alzira, filha de Getúlio Vargas.

‘‘. . . ela tomava consciência da História como uma estúpida sucessão de acontecimentos aleatórios, um enredo inepto e incompreensível de falsidades, inferências fictícias, ilusões, povoado de fantasmas.’’  ( Agosto, p. 304 )

Recorre a conceitos de outras áreas do conhecimento humano para melhorar o entendimento da história.

O comissário Mattos vale-se do conceito de lógica para orientar suas investigações, para desvendar os crimes.

‘‘ . . . havia uma lógica adequada à criminologia . . .  Na sua lógica, o conhecimento da verdade e a apreensão da realidade só podiam ser alcançados duvidando-se da própria lógica e até mesmo da realidade. ’’  (Agosto, p. 109 )

A máxima de Diderot, da filosofia, ajudava-no a interpretar as pistas e suspeitas que tinha.

‘‘ . . . que gostava de repetir a máxima de Diderot de que o ceticismo era o primeiro passo em direção à verdade, estava agora cheio de certezas?’’ (Agosto, p. 189 )

Conceitos e conhecimento de psicologia e psiquiatria são usados pelo médico de Alice para explicar psicose-maníaco-depressiva.

‘‘ Quando está na fase maníaca ela tem uma necessidade irreprimível de movimento, É irônica, mordaz  mesmo. Têm idéias delirantes, com associações muito rápidas .’’

‘‘ A psicose  maníaco-depressiva é curável, mas nem todos os pacientes têm a mesma resposta positiva,’’

‘‘Digamos que tem ilusões, nos momentos mais agudos dos surtos. Alucinação é a percepção sem objeto. Ilusão, a percepção deformada do objeto.’’

‘‘Algumas concepções persecutórias, transitórias e epifenomênicas.’’ (Agosto, p. 190 )

POLIFONIA

Segundo definição de teóricos, polifonia é a simultaneidade de várias vozes que se desenvolvem independentemente dentro da obra sem interferir na unidade da  história.

A polifonia está presente na obra porque o autor dá voz às personagens principais, ou seja, elas apresentam uma concepção de mundo, suas idéias expressam a autoconsciência , a ideologia veiculada serve para explicar e entender alguns fatos e conhecimentos da História do Brasil.

A obra é polifônica porque as idéias, as concepções de mundo das personagens, suas atitudes é que definiram os rumos, os acontecimentos narrados na história.

O comissário  Alberto Mattos, único integrante da polícia que não recebia propina dos bicheiros, faz uma retrospectiva de sua vida, faz uma análise de sua vida atual.

‘‘ Os policiais saíram e Mattos ficou pensando no que faria um sujeito ser da polícia. No seu caso fora simplesmente a incapacidade de arranjar um emprego melhor. Depois de três anos advogando para criminosos pobres, sem ganhar dinheiro para pagar o aluguel do escritório, sem dinheiro para casar, . . . ’’  (Agosto, p. 209 )

‘‘ Não sou um homem culto como o senhor, mas por favor me diga: o número dos criminosos não é cada vez maior? No mundo inteiro? Qual a razão disso, me esclareça por favor?  Presos demais ou de menos, nas cadeias?  (Agosto, p. 204 )

O presidente Getúlio Vargas quando faz uma análise de sua trajetória política, quando se depara com dificuldades, com o desgaste de sua imagem de grande estadista, com as campanhas exigindo o seu afastamento, a sua renúncia.

‘‘ Vargas se sentia extenuado. Desde o princípio ele não esperava um apoio sólido para lutar; conhecia a natureza humana, participara, em sua carreira política, de conchavos, revoltas, comborças, golpes, revoluções. Assim, os rostos cautelosos da maioria dos ministros, e as palavras evasivas deles, envoltas em metáforas abdicatórias . . . não lhe haviam causado surpresa, apenas aumentaram seu cansaço.’’ ( Agosto, p. 319-320 )

‘‘Lembrou-se novamente do sofrimento que vira no rosto de sua filha, pensou em sua própria recusa à luta. Pensou na morte. Começou a chorar.’’ ( Agosto, p. 323 )

‘‘ Deitado na cama. Com os olhos abertos sem ver, Vargas imaginou como sua morte seria recebida pelos seus inimigos. Sua carta, que fora escrita para se despedir do governo e não da vida, rascunhada dias antes a seu pedido por Maciel Filho, seu amigo e auxiliar desde os anos 30, podia servir também, e até melhor, para um adeus definitivo.   Faria o que tinha que ser feito. Desafronta e redenção. Uma sensação eufórica de orgulho e dignidade  tomou conta dele.’’ (Agosto, p. 325 )

Alzira, a filha de Getúlio, que tinha grande respeito e admiração pelo pai, que ficou ao seu lado até os últimos instantes, sugerindo lutar sempre, não aceitando o afastamento ou a renúncia sem resistência.

‘‘Alzira pensara que a História redimira seu pai em 1950. Agora naquele aflitivo agosto de l954, em que pela primeira vez via o pai como um velho desencantado, um homem sem esperança, sem desejo, sem vontade de lutar; um homem pequeno, frágil, doente, vítima das aleivosias torpes dos inimigos, dos julgamentos ambíguos dos amigos; agora, ela tomava consciência da História como uma estúpida sucessão de acontecimentos aleatórios, um enredo inepto e incompreensível de falsidades, inferências fictícias, ilusões, povoado de fantasmas. Ela agora se perguntava, então deixara de existir aquele outro homem cuja memória guardara tantos anos em seu coração? Era ele um outro fantasma, nunca existira? Esse pensamento lhe foi tão doloroso e insuportável que por momentos ela pensou que não resistiria e morreria de dor . . .’’ Agosto. P. 304 )

Nesta obra, também outras personagens têm autoconsciência, expressam sua idéia, sua concepção de mundo: Salete, Pedro Lomagno, .  .  .

  1. CONCLUSÃO

O autor Rubem Fonseca faz um desnudamento de um período da História do Brasil, apresenta dados desconhecidos pelo povo, ocultados pela versão oficial do processo histórico veiculado pelos autores de livros didáticos, por revistas especializadas e livros de História.

Todos os dados, informações e fatos são verossímeis. A obra também é ficção. Cabe a cada leitor a leitura que lhe é possível, porque segundo o jornalista Carlos Lacerda ‘‘Vargas está deposto pelo sangue que fez derramar.’’

Talvez a verdadeira história esteja nos documentos que foram retirados rapidamente do cofre do quarto do presidente Vargas e levados por Lourival Fontes, chefe do Gabinete Civil, até um carro.

Se houve um bilhete escrito por militares e  atribuído a Getúlio, será que a carta foi escrita pelo presidente? O presidente suicidou-se ou foi assassinado?  Esta dúvida ainda permanece.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1.   BAKTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoievski. Rio de Janeiro:           Forense-Universidade, 1981.

  1. BURKE, Peter (org.)  A escrita da história . São Paulo. Unesp, 1992.

 

  1. FONSECA, Rubem. Agosto: romance. São Paulo: Companhia das Letras. 1990.

 

  1. HUTCHEON, Linda. A poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro.      Imago.

1991.

 

  1. RIEDEL, Dirce Côrtes (org.) Narrativa: ficção e história. Rio de Janeiro. Imago

 

6.  WHITE, Hayden. Meta-história. São Paulo: Edusp, 1995.

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 A  ILÍADA: UMA SINFONIA https://celestedummer.com.br/a-iliada-uma-sinfonia/ Thu, 08 May 2014 02:39:33 +0000 http://celestedummer.com.br/web/?p=469 O presente ensaio pretende fazer uma análise de A Ilíada, de Homero, enfocando a polifonia na construção da obra-prima da poesia épica e, para muitos...

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A ILÍADA: UMA SINFONIA
A ILÍADA: UMA SINFONIA

O presente ensaio pretende fazer uma análise de A Ilíada, de Homero, enfocando a polifonia na construção da obra-prima da poesia épica e, para muitos estudiosos, a bíblia da antiga Grécia.

        Segundo definição de teóricos, entre eles Bakhtin, polifonia é a simultaneidade de várias vozes que se desenvolvem independentemente dentro da obra sem interferir na unidade da história.

        Uma obra é polifônica quando as personagens têm voz própria, têm uma ideologia própria, manifestam sua autoconsciência, traçam seu destino, vivem sempre no limite para chegar ao autoconhecimento. Tentam entender e explicar o mundo.

        O autor não conduz a ação. A ação das personagens, suas atitudes, sua concepção de mundo é que definem os rumos, os acontecimentos. O importante não é o que as personagens são no mundo, mas o que o mundo é para as personagens e o que elas são para si mesmas.

        Donaldo Schüler diz que a  sinfonia bakhtiniana dá seus primeiros acordes na obra de Homero, em A Ilíada, pois o narrador dá voz a deuses, deusas, reis, guerreiros e a algumas mulheres.

        A Ilíada é uma sinfonia baseada na multiplicidade de focos. O ‘‘canto’’ das personagens (deuses, deusas, guerreiros, mulheres) é sempre uma tentativa de autoconhecimento, de revelação da verdade, da constante incerteza em que vivem e sua inseparabilidade do indivíduo.  Criam e adoram deuses para explicar suas atitudes, purgar seus pecados; fazem sacrifícios, levam oferendas, rendem culto a eles.

        A obra de Homero em tudo é grandiosa: na amplitude do pensamento, na extensão do poema, na riqueza da descrição dos pormenores.

        A sobriedade nos pormenores e o traço material desenhado, firme, sempre realista; essas e outras qualidades fizeram da Ilíada um dos grandes poemas descritos e analisados por críticos, curiosos, amantes e estudiosos da literatura. Poetas, escritores, pintores e escultores procuram inspiração para suas obras.

        Durante vários séculos, muitos poetas compuseram seus poemas imitando ou tentando imitar Homero, A Ilíada.

        Na religião deixou traços marcantes, tornando célebres e sempre lembrados os mitos, os deuses descritos no poema.

        A Ilíada tem por assunto a narrativa dos combates travados diante de Tróia, pelos gregos. Combates que a ira de Aquiles, ofendido por Agamenon (que lhe tira uma mulher),  provoca e que só tem fim com a morte de Heitor. A imolação de Pátroclo, amigo e confidente de Aquiles, às mãos de Heitor e o conseqüente combate destes dois heróis, com a vitória decisiva de Aquiles; as honras fúnebres que o velho Príamo rende ao cadáver do filho, cuja entrega vai implorar ao seu vencedor; por outro lado, os prudentes conselhos de Nestor, o mais idoso dos príncipes que assistiram ao cerco de Tróia; as desventuras de Hécuba, mulher de Príamo, a quem é infligida a dor de ver morrer o marido e quase todos os filhos, e, finalmente, as virtudes conjugais e a resignação de Andrômaca, mulher de Heitor, são descrições e quadros belíssimos do poema, cuja intensidade de colorido e realismo de observação ninguém, ainda, levou mais longe.

        O autor dá voz às mulheres através de Tétis, Hécuba, Andrômaca e Helena, que expressam e confessam o sofrimento e a humilhação impostos às mulheres,  que são entregues como escravas aos seus senhores; destinadas para satisfazer seus donos e gerar homens fortes e guerreiros para a pátria e, assim, fortalecer e perpetuar o instinto vingador, o comportamento bélico dos gregos guerreiros.

 

       Apesar de algumas mulheres receberem voz, não apresentam uma leitura crítica da realidade delas. Apenas confirmam a ideologia vigente, reforçando-a. Conhecem e se submetem às idéias, assumem a condição feminina como algo inferior, como escravas. Aceitam trocar de dono quando são disputadas em lutas ou combates. São o símbolo da vitória usado pelos homens.

        Helena é conhecida e acusada de ser a causadora da guerra e da destruição de Tróia, apesar de Príamo dizer que os deuses são os culpados.

 ‘‘ .  .  . (pois, aos meus olhos, não és tu que mereces censura, e sim os deuses, que me trouxeram esta lamentável guerra contra os aqueus).  .  .’’ ( A Ilíada, p. 36)

        Durante uma discussão entre Alexandre e Heitor, a própria Helena reconhece e confessa que é a causadora de tanta luta, toda a guerra, tanta destruição. Ela não consegue ver caminhos para uma solução pacífica, pois a ideologia reinante atribuía à mulher a inferioridade, a  responsabilidade de ser submissa, de se sujeitar a tudo que fosse determinado pelos deuses e pelos homens.

 ‘‘Meu irmão, horrível, maldosa víbora que sou, oxalá o dia em que minha mãe me teve a ventania da tempestade me tivesse arrastado para a montanha ou para a margem do ressonante mar . . .’’ (A Ilíada, p.70)                       

 

       Em suas lamentações, Helena confessa que muitas humilhações sofreu no palácio, mas apenas Heitor a apoiou e protegeu quando todos a acusavam. Tem consciência de que provoca vergonha em seus irmãos.

‘‘Eis que faz vinte anos que aqui estou e deixei minha pátria. Jamais, porém, até este dia, ouvi de ti uma palavra áspera ou desdenhosa. Ainda que, em nossos palácios eu tenha ouvido palavras ásperas de qualquer um de teus irmãos ou de tuas irmãs ( meu sogro sempre foi   gentil para comigo, como um pai), tu os continhas e apaziguavas com tuas palavras . . . Choro tanto por ti como por mim, desventurada.’’ (A Ilíada, p. 274)

‘‘. . . ou se vieram nos navios que cortam o mar, mas agora não estão dispostos a participar da batalha de heróis, temendo a desgraça, porque eu os envergonho.’’ ( A Ilíada, p. 37)                                  

     Hécuba é o retrato da mulher que sofre todas as desventuras, a quem é infligida a dor de ver morrer o marido e quase todos os filhos.

  ‘‘Meu filho. . . eras o meu orgulho na cidade, a proteção dos troianos e troianas.’’ (A Ilíada, p. 245)

 ‘‘Heitor, o mais querido no coração de todos os meus filhos, em vida foste amado dos deuses e eles te olharam mesmo depois da morte. Eis que Aquiles costumava vender meus outros filhos, a quem os comprasse . . .’’ ( A Ilíada, p. 274)

        Andrômaca retrata a resignação das mulheres da época. São salientadas as virtudes conjugais e a resignação diante da realidade e do destino traçado para elas.

 ‘‘Preferia, se perder-te, perder a vida. Não terei mais prazer quando tiveres sido vítima do destino, mas apenas pesar.’’ (A Ilíada, p.71)

‘‘E tu, criança, ou me seguirás aonde eu tiver de executar trabalhos indecorosos, submetida a algum senhor implacável . . .  Heitor, trouxeste inexprimível dor e sofrimento a teus pais, mas para mim, mais do que todos, indizível sofrimento foi deixado.  . . ( A Ilíada p.274)

        A deusa Tétis, mãe de Aquiles, chorando diz para que finalidade os filhos são gerados, expressa a dor e o sofrimento das mulheres mães. Ela tem consciência de que não  é a mais honrada entre as deusas.

 ‘‘Oh, meu filho! Por que te concebi para um tão desgraçado destino? Por que não podes ficar ficar, sem lágrimas e livre de pesares, junto aos navios, já que teu destino é curto e não durarás muito tempo?’’ ( A Ilíada, p. 15-16)

‘‘ . . . já que não receias que eu saiba que sou a menos honrada entre todos os deuses.’’ ( A Ilíada, p. 17)

        As personagens masculinas, deuses, fortes e valentes guerreiros, são apresentadas pela obra através das falas onde elas se desnudam, se mostram ao espectador ou ao leitor.

       Aquiles, o dos pés ligeiros, ofendido, reprova o gesto de Agamenon tirar-lhe a mulher que ganhara como prêmio de vitória de uma batalha.

 ‘‘Minhas mãos sustentam os pesados encargos da furiosa guerra, no entanto, quando se faz a divisão dos despojos, tua presa é sempre a maior e eu regresso ao navio com pouca coisa, mas que bem mereço, para retemperar-me das fadigas.

        Nestor, o mais idoso dos príncipes que assistiram ao cerco de Tróia, aconselha prudência aos guerreiros para entrarem em combate.

 ‘‘Desses homens fui companheiro quando vim de Pilos, de uma terra distante, pois eles próprios me convocaram. Lutei emcombate singular: com aquele inimigo nenhum dos mortais que ora se encontra sobre a terra poderia lutar. Eles ouviram os meus conselhos e atendiam à minha palavra.’’ ( A Ilíada, p. 12)

        O guerreiro Heitor sabe que seu destino, depois de tanto sofrimento e tanta luta, será a morte ao dizer: ‘‘os deuses em verdade  chamam-me para a morte; agora a morte sinistra está perto de mim.’’

        A obra  A Ilíada pode receber a denominação de sinfonia, uma vez que em sua forma original é uma poesia, encenada e cantada por diversos atores. E porque o autor dá voz às personagens para expressarem sua consciência, sua tentativa de autoconhecimento.

        O leitor, ou o espectador, fica extasiado diante da grandiosidade da obra, constituída por personagens que expõem a incerteza que invade o ser humano quando se depara  com dificuldades, quando precisa enfrentar perigos, defender a pátria, partir para um guerra, executar uma vingança.

        A Ilíada é um poema épico construído através de um vai e vem, onde os artistas executam seu solo de incerteza, resignação, ódio, ira, sagacidade, vitória, derrota, vingança, através da simultaneidade de vozes das personagens que compõem e executam uma melodia, uma grandiosa e heróica sinfonia, onde o humano e o divino se mesclam, e com que se fecha o texto musical.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense –Universidade, 1981.

 HOMERO. A Ilíada: (em forma de narrativa); tradução e adaptação de Fernando C. de Araújo Gomes. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

 SCHÜLER, Donaldo. Quem é Ulisses?  Signo. Vol 20, n. 28 (Mar. 1995). Santa Cruz  do Sul. Editora da UNISC, 1996.

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